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'The sardine photo experience' - Capítulo II

De Jueves, Marzo 8, 2018 - 18:30 hasta Jueves, Abril 19, 2018 - 18:30

A Tertúlia Algarvia recebe, ao longo de 2018, o ciclo de exposições ‘The sardine photo experience’, que têm a sardinha como objeto de atenção e que abordam temas como a pesca da sardinha no Algarve, a indústria conserveira, as sardinhadas e as procissões marítimas dos pescadores.

Cada tema específico é fotografado autonomamente por diversos fotógrafos, tendo em vista obter distintos olhares sobre o mesmo assunto.

O capítulo II deste ciclo decorre de 08 de março a 19 de abril. Intitula-se ‘Filipe da Palma passou uma noite a bordo da traineira Arrifana’ e apresenta fotos captadas pelo próprio, o qual descreve essa experiência assim:

«Franqueada a porta da casa do leme, à direita uma tangível imagem de Nossa Senhora de Fátima. No interior, ocupando cerca de metade do espaço da parede frontal, ao lado da roda do leme, imensos ecrãs, cada qual com a sua função. A visão romântica de uma pesca efetuada por instinto e por leitura de sinais terrenos e marítimos, que não permeados por tecnologia, ficou confirmada pela sua negação.

Em 22 metros de traineira, corpos de homens dos 20 e muitos aos mais de 60 anos sabem com a precisão de um relógio o que é necessário fazer para que a Arrifana abandone o iluminado porto de Portimão, sulcando a partir de agora o negrume da cálida noite.

Passam as horas devagar, repousa a maioria dos pescadores, aproveita-se para confirmar in situ, através de sonares, o leito que uns afirmavam rochoso e que o não é, permitindo no futuro e em necessidade lançar rede. Entre o barulho dos motores que se escapa do inferior cavername e da restante maquinaria tecnológica que apetrecha a casa do leme, a comunicação entre mestre e contramestre faz-se de modo quase impercetível, no que a mim me parecem sussurros. Mas 16 anos de relação profissional para além de familiar, em tão exíguo espaço, contribuem para que a linguagem seja compreensível e despojada de desnecessários artifícios.

Uma vez registados os sons que nos acompanharão ao longo de quase 12 horas, habitua-se o corpo. Às primeiras horas de um novo dia, ainda noite, adormeço no beliche onde me encontrava sentado com os olhos a navegarem por entre leituras e cromatismos vários. Acordo ainda noite mas não faltando muito para o raiar do Sol. Já havíamos percorrido largas milhas de um mar manso, e Sagres e outro mar estavam ali ao dobrar do Cabo. Porém, voltamos para trás numa viagem que em demasia se tinha estendido.

Com o rosto já bem iluminado adormeço uma outra vez, tendo acordado pouco depois com o esperançoso silvo da sirene que pela sua presença colocou de uma só vez todos os homens no convés. É largada a umbilical lancha e um círculo inicia-se na água, corpos afadigam-se nas tarefas do cerco que se fecha. Máquinas e homens em perfeita simbiose fecham e recolhem uma gigantesca rede, não existindo quase necessidade de palavras de ordem, pois todos conscientes e empiricamente sabem o que fazer e, acima de tudo, o que não fazer. Gaivotas aproximam-se, curiosamente sobrevoando o círculo que lenta e paulatinamente se estreita.

Não há motivos para sorrir, pois que, para além do imenso trabalho que há por fazer, a sardinha que é pouca encontra-se misturada com cavala cujo preço em nada compensa a sua pesca. Com o Sol já bem alto, com o peixe escolhido à mão, entramos pela barra em direção ao porto de onde havíamos zarpado cerca de 12 horas antes. Adivinhava-se uma Praia da Rocha cheia, em pleno e farto mês de agosto, mas o fruto do trabalho muito longe ficará para responder, sequer, aos gastos de combustível...»

‘The sardine photo experience’ é um projeto documental e coletivo, promovido pelos Encontros de Fotografia de Lagoa (ENFOLA) e coordenado por Nuno de Santos Loureiro.

Mais informações sobre ‘The sardine photo experience’: aqui

Mais informações sobre os ENFOLA: aqui

Filipe da Palma sobre Filipe da Palma

«O que colocar por escrito que espelhe a minha trajetória de vida,  que seja um reflexo do meu percurso académico e, posteriormente, minhas profissionais experiências e que assim surja perante vós uma imagem límpida e fiel de minhas habilidades e competências?

Serão os estudos e as profissionais experiências mais importantes que as não assalariadas, porém bem nutridas, paixões?

Há toda uma vida para além da que é mensurável, académica e profissionalmente. Há todo um espanto perante a vida, na sua multiplicidade de existências. Há toda uma descoberta do ser que nos é semelhante, porém tão diferente. Como colocar tudo isso no espartilho de um Curriculum Vitae? É possível sequer?   

Um livro, uma música, um poema que nos surja em determinado momento e que pela sua importância se tenha constituído em vetor de epifania, como incluir um qualquer desses elementos /acontecimentos num documento que obedece a uma lógica que me é tão estranha e destinada a fins tão diferentes.

Ter lido ou ouvido uma qualquer obra de cultural referência ter-me-á marcado e influenciado mais que uma outra qualquer tangível e vulgar experiência?

Não tendo respostas para estas questões e para muitas mais que emergem a todo momento, sei, porém, que não é este o meu caminho - o de responder perante o que me é solicitado, nesses parâmetros, apesar de me sentir confortável para escrever:

- Filipe Sancho Rodrigues da Palma
- Sâo Brás de Alportel – 01/06/1971
- Ser existente a 26/02/18»